Jesus de Nazare

O PROFETA

Julho 30th, 2008

                                                    Oração de um Profeta

Esta  oração  é  pronunciada  por  um  homem  chamado  a  ser testemunha ante as nações, e foram estas as palavras que disse ao seu Senhor no dia em que foi ordenado. Depois de os anciãos e ministros terem orado e pousado sobre ele as suas mãos, retirou-se para estar a sós com o seu Salvador, no silêncio, mais além do que os seus irmãos bem intencionados o podiam levar. E disse:

Senhor, escutei a tua voz e tive medo.  Chamaste-me  a  uma  tarefa solene numa hora grave e perigosa. Em breve abalarás todas as nações, a terra e também o céu, para que fique só aquilo que é inabalável. Senhor, nosso Senhor, aprouve-Te honrar-me chamando-me  a  ser  teu  servo.  Só aceita  esta  honra  aquele  que  é chamado a ser teu servo, visto ter de ministrar  junto  àqueles  que  são obstinados  de  coração  e  duros  de ouvido. Eles Te rejeitaram, a Ti, que és o Amo, e não posso esperar que me recebam a mim, que sou o servo. Meu Deus, não vou perder tempo a  deplorar  a  minha  fraqueza  ou  a minha incapacidade para o trabalho. A responsabilidade é tua, não minha, pois disseste: "Conheci-te, ordenei- te, santifiquei- te", e também: "Irás a todos aqueles a quem Eu te enviar, e  falarás  tudo  aquilo  que  Eu  te ordenar".  Quem sou eu para argu- mentar  contigo  ou  para  pôr  em dúvida  a  tua  escolha  soberana?  A decisão não é minha, mas sim tua. Assim seja, Senhor; cumpra-se a tua vontade e não a minha. Bem sei, Deus dos profetas e dos apóstolos,  que,  enquanto  eu  Te honrar,  Tu  me  honrarás  a  mim. Ajuda-me, portanto, a fazer este vo- to  solene  de  Te  honrar  em  toda  a minha vida e trabalho futuros, quer ganhando quer perdendo, na vida ou na morte, e a manter intacto esse voto enquanto eu viver. É tempo, ó Deus, de agires, pois o inimigo entrou nos teus pastos e as ovelhas são dilaceradas e dispersas. Abundam também falsos pastores que negam o perigo e se riem das ameaças que  rodeiam  o  teu  rebanho.  As ovelhas  são  enganadas  por  estes mercenários  e  seguem-nos  com fidelidade, enquanto o lobo se acerca para  matar  e  destruir.  Imploro-Te que  me  dês  olhos bem  abertos  para descobrir a presença do inimigo; que me dês compreensão pa- ra distinguir entre o falso e o verdadeiro amigo.  Dá-me  visão  para  ver  e  coragem para declarar fielmente o que vejo.  Torna  a  minha voz tão parecida com a tua que até as ove- lhas  doentes  a  reconheçam  e  Te sigam. Senhor Jesus, aproximo-me de Ti em busca de preparação espiritual. Pousa a tua mão sobre mim. Unge- me com o óleo do profeta do Novo Testamento.  Impede  que  eu  me transforme  num  religioso  e  perca assim  a  minha  vocação  profética. Salva-me  da  maldição  que  paira sombriamente  sobre  o  sacerdócio moderno;  a  maldição  da  transi- gência,  da  imitação,  do  profis- sionalismo.  Salva-me  do  erro  de julgar  uma  igreja  pelo  número  de seus membros, pela sua popularidade ou pelo total de suas ofertas anuais. Ajuda-me a lembrar-me de que eu sou profeta, não um animador, não um gerente religioso, mas um profeta. Que eu nunca me transforme num escravo das multidões. Cura a minha alma das ambições carnais e livra-me do prurido da publicidade. Salva-me da  servidão  das  coisas  materiais. Impede-me  de  gastar  o  tempo  entretendo-me com as coisas da minha casa. Faze o teu terror pousar sobre mim, ó Deus, e impele-me para o lugar de oração onde eu possa lutar com os principados, e potestades, e prín- cipes das trevas deste mundo. Livra-me de comer  demais  e  de dormir demais. Ensina-me a autodisciplina  para  que  eu possa  ser  um  bom soldado  de  Jesus Cristo. Aceito  trabalho duro  e  pequenas compensações nesta vida. Não peço um cargo fácil. Procurarei ser cego aos pequenos pro- cessos de facilitar a vida. Se outros procuram o caminho mais plano, eu procurarei  o  caminho  mais  árduo, sem  os  julgar  com  demasiada  se- veridade.  Esperarei  oposição  e procurarei  aceitá-la  serenamente quando ela vier. Ou se, como por vezes sucede aos teus servos, o teu povo bondoso me obrigar a aceitar ofertas  expressivas  de  gratidão, conserva-Te ao meu lado e salva-me da praga que a isso freqüentemente se  segue;  ensina-me  a  usar  o  que porventura receber de tal modo que não  prejudique  a  minha  alma  nem diminua o meu poder espiritual. E se a  tua  providência  permitir  que  me advenham honras da tua Igreja, que eu não esqueça naquela hora que sou indigno  da  mais  ínfima  das  tuas misericórdias, e que, se os homens me  conhecessem  tão  intimamente como eu me conheço a mim próprio, me retirariam tais honrarias para as darem a outros mais dignos delas. E agora, Senhor do céu e da ter- ra,  consagro-Te  o  resto  dos  meus dias, sejam eles muitos ou poucos, consoante a tua vontade. Quer eu me erga perante os grandes quer ministre aos pobres e humildes, essa escolha não é minha, e eu não a influenciaria, mesmo que pudesse. Sou teu servo para cumprir a tua vontade. Ela é mais doce para mim do que a posição, ou as riquezas, ou a fama, e escolho- a acima de tudo o mais na terra ou no céu. Embora eu tenha sido escolhido por Ti e honrado por uma alta e santa vocação, que eu nunca esqueça que não passo de um homem de pó e cinza com  todos  os  defeitos  e  paixões naturais  que  atormentam  a  hu- manidade. Rogo-Te, portanto, meu Senhor e Redentor, que me salves de mim próprio e de todo o mal que eu puder fazer a mim mesmo enquanto procuro  ser  uma  bênção  para  os outros. Enche-me do teu poder pelo Espírito Santo, e eu caminharei na tua força e proclamarei a tua justiça - a  tua  tão  somente.  Anunciarei  a mensagem  do  teu  amor  redentor enquanto tiver forças. E, Senhor amado, quando eu for velho e estiver fatigado, demasiado cansado para prosseguir, prepara-me um lugar lá em cima e conta-me entre o número dos teus santos na glória eterna. Amém. (Originalmente  publicado  em Português pela Revista Teológica, Seminário  Teológico  Batista, Leiria,  Portugal,  Vol  III,  Abril- Junho  1964,  No.  2)

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