Jesus de Nazare

A VITORIA DIVINA.

Agosto 6th, 2008

SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)

SOBRE A PROVIDÊNCIA DIVINA

"E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos". (Lucas 12:7)

1. A doutrina da providência divina tem sido recebida pelos homens sábios em todas as épocas. Muitos dos eminentes pagãos acreditaram, não apenas os filósofos, mas oradores e poetas. Inumeráveis são os testemunhos concernentes a ela que são espalhadas aqui e ali, nos escritos deles; de acordo com o bem conhecido dizer em Cícero Deorum moderamine cuncta geri: "Todas as coisas, todos os eventos neste mundo estão sob a direção de Deus". Nós traríamos uma nuvem de testemunhos para confirmar isto, fosse algum tão ousado, a ponto de negá-la.

2. A mesma verdade é reconhecida hoje, na maior parte do mundo; sim, até mesmo, por aquelas nações que são tão bárbaras, de maneira a não conhecerem o uso das letras. Assim, quando se perguntou a Paustoobee, um chefe Índio, do Chicasaw, nação da América do Norte: "Por que vocês pensam que O Amado (assim eles denominam Deus) cuida de vocês?", ele respondeu, sem qualquer hesitação: "Eu estive na batalha com a França; e a bala passou por este lado; e este homem morreu, e aquele homem morreu; mas eu estou vivo ainda; e por isto eu sei que O Amado cuida de mim".

3. Mas, embora os antigos, assim como os modernos pagãos têm alguma concepção da divina providência, ainda assim, as concepções que a maioria deles toma em consideração, concernente a isto eram obscuras, confusas, imperfeitas. Sim, os relatos do mais instruído entre eles, eram usualmente contraditórios uns com os outros. Acrescente a isto, que eles estavam, de modo algum, seguros da verdade daqueles mesmos relatos: Eles dificilmente se atreveram a afirmar alguma coisa, mas falaram com a mais extrema precaução e difidência; de tal maneira, que o próprio Cícero; o autor daquela nobre declaração se aventura a afirmar, a sangue frio, no final de sua longa disputa sobre o assunto, resulta em não mais do que esta falha e impotente conclusão: Mihi verisimilior videbatur Cotta oratin: "O que Cotta disse", (A pessoa que argumentou na defesa da existência e providência de Deus) "pareceu a mim mais provável do que o que seu oponente tinha avançado ao contrário".

4. E não é de se surpreender: Porque apenas o próprio Deus pode dar um relato claro, consistente, perfeito (ou seja, tão perfeito quanto nosso entendimento fraco pode receber, neste nosso estado infantil de existência; ou, pelo menos, como é consistente com os desígnios do seu governante), de sua maneira de governar o mundo. E isto Ele tem feito em sua palavra escrita: Todos os oráculos de Deus, todas as Escrituras, ambas do Velho Testamento e Novo, descrevem tantas cenas da providência divina. É uma bonita observação de um fino escritor: "Aqueles que objetam o Velho Testamento, em específico, como não estando ligado à história das nações, mas apenas às agregações de eventos quebrados, desconectados, não observam a natureza e objetivo desses escritos. Eles não vêem que as Escrituras são a história de Deus". Aqueles que pensam assim facilmente perceberão que os escritores inspirados nunca perderam isto de vista, a não ser preservar uma cadeia inteira, e ligada do começo ao fim. Tudo sobre aquele livro maravilhoso, como "a vida e imortalidade" (vida imortal) é gradualmente "trazida ao conhecimento", assim é Emanuel, Deus conosco, e seu reino sobre todos.

5. Nós versos precedentes, o texto, nosso Senhor tem armado seus discípulos contra o temor do homem: "Não tema", diz Ele, (verso 4)"aqueles que podem matar o corpo, e depois disto, nada mais que podem fazer". Ele os protege contra este medo, primeiro, lembrando-os do que era infinitamente mais terrível do que alguma coisa que o homem poderia infligir: "Tema a Ele, que depois que mata, tem o poder de lançar no inferno". Ele os protege mais além, contra isto, pela consideração de uma providência governante: "Cinco pardais não são vendidos por duas farthings [moeda inglesa de ¼ de pêni], e nenhum deles é esquecido diante de Deus?".  Ou, como as palavras são repetidas por Mateus, com a mesma variação insignificante (10:29-30) " Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados". 

6. Nós devemos, de fato, observar que esta forte expressão, embora repetida, por ambos os Evangelistas, não precisa implicar (embora, se alguém pensar que sim, ele pode pensar muito inocentemente), que Deus literalmente numera os cabelos que estão nas cabeças de todas as suas criaturas. Mas trata-se de uma expressão proverbial, implicando que nada é tão pequeno ou insignificante, às vistas dos homens, de maneira a não ser um objeto do cuidado e providência de Deus, diante de quem nada é pequeno quando diz respeito à felicidade de alguma de suas criaturas.

7. Escassamente existe alguma doutrina em todo o compasso da revelação, que seja de importância tão mais profunda do que isto. E, ao mesmo tempo, existe escassamente alguma que seja tão pouco cuidada, e talvez, tão pouca compreendida. Vamos nos esforçar, então, com a assistência de Deus, para examiná-la em sua profundidade; para ver junto a qual fundamento ela se situa, e o que propriamente implica.

8. O eterno, poderoso, todo-sábio, todo-gracioso Deus é o Criador do céu e terra. Ele chamou do nada, através de sua palavra toda-poderosa, todo o universo, tudo que existe. "Assim, os céus e terra foram criados, e toda a multidão de homens". E, depois, Ele estabeleceu todas as coisas mais, em uma ordem; as plantas, segundo os tipos; peixes e pássaros; bestas e répteis, segundo suas espécies. "Ele criou o homem, segundo sua própria imagem". E o Senhor viu que toda parte distinta do universo era boa. Mas, quando viu tudo que tinha feito, tudo que estava em ligação uns com os outros, "observou que isto era muito bom".

9. E como este todo sábio, todo gracioso Ser criou todas as coisas, então, Ele mantém todas coisas. Ele é o Preservador, assim como, o Criador de tudo que existe. "Ele sustenta todas as coisas, através da palavra de seu poder", ou seja, através da sua palavra poderosa. Agora Ele deve conhecer todas as coisas que Ele fez, e todas as coisas Ele preserva, de tempos em tempos; do contrário, Ele não poderia preservá-las; Ele não poderia continuar a dar o que Ele tem dado. E não é nada estranho que Ele que é Onipresente, que "preenche céus e terra"; que está intimamente presente. Se o olho do homem discerne coisas a uma pequena distância; o olho de uma água, que está a uma maior; o olho de um ângulo, que está mil vezes a uma distância maior (talvez, tomando a superfície da terra em um só olhar); como o olho de Deus não deverá ver tudo, através de toda a extensão da criação? Especialmente considerando que nada está distante Dele, em quem nós todos "vivemos, e nos movemos e temos nossa existência".

10. É verdade, que nossos entendimentos estreitos compreendem, a não ser imperfeitamente isto. Mas quer compreendamos ou não, estamos certo de que assim é. Tão certo quanto foi Ele que criou todas as coisas, e que Ele ainda mantém tudo que é criado; tão certo quanto Ele está presente, em todos os tempos; em todos os lugares; acima, abaixo; que Ele "nós observa por trás e pela frente", e, por assim dizer, "coloca suas mãos sobre nós".  Nós admitimos que "tal conhecimento é muito alto", e maravilhoso para nós; nós "não podemos alcançá-lo". A maneira de sua presença, nenhum homem pode explicar, nem, provavelmente, algum anjo no céu. Talvez, o que o filósofo antigo fala da alma, com respeito à sua residência no corpo, que ela é tota in toto, et, tota in qualibet parte, poderia, em algum sentido, falar-se do Espírito onipresente, com respeito a todo o universo: Que Ele não é apenas "Tudo no todo", mas "Tudo em cada parte".  Seja isto como for, não se pode duvidar que Ele vê todo átomo de Sua criação, e isto milhares de vezes mais claramente do que vemos as coisas que são próximas a nós: Mesmo aquelas em que vemos apenas a superfície, enquanto Ele vê a essência interior de cada coisa.

11. O Deus Onipresente vê e sabe todas as propriedades dos seres que Ele fez. Ele conhece todas as conexões, dependências, e relações, e todos os caminhos em que um deles pode afetar o outro. Em específico, Ele vê todas as partes da criação inanimada, quer no céu, ou na terra. Ele sabe como as estrelas, cometas, ou planetas influenciam os habitantes da terra; que influência os céus mais baixos, com seus periódicos de fogo, granizo, neve, vapores, ventos, e tempestades, têm sobre nosso planeta; e que efeitos pode ser produzido nas entranhas da terra, pelo fogo, ar, ou água; quais exalações podem surgir daquilo, e que mudanças forjadas, por meio delas; quais efeitos todo mineral ou vegetável podem ter junto aos filhos dos homens: Todos esses se colocam nus e abertos aos olhos do Criador e Preservador do universo.

12. Ele conhece todos os animais do mundo inferior, quer sejam bestas, pássaros, peixes, répteis ou insetos: Ele conhece todas as qualidade e poderes que Ele deu a eles, do mais alto ao mais baixo: Ele conhece todo anjo bom e anjo mal, em toda parte de seus domínios e olha do céu para os filhos dos homens, sobre toda a face da terra. Ele conhece todos os corações dos filhos dos homens e entende todos os seus pensamentos: Ele vê o que algum anjo, algum demônio, algum homem pensa, fala, ou faz; sim, e tudo que eles sentem. Ele vê todos os sofrimentos deles, com todas as circunstâncias deles.

13. E o Criador, o Preservador do mundo está despreocupado com o que Ele vê nele? Ele olha para essas coisas com um olho nocivo ou descuidado? Ele é um deus epicurista? Ele se senta confortável no céu, sem se preocupar com os pobres habitantes da terra? Não pode ser. Ele nos fez, não nós a nós mesmos; e ele não pode menosprezar a obra de suas próprias mãos. Nós somos seus filhos: E pode uma mãe esquecer os filhos de seu ventre? Sim, ela pode esquecer; ainda assim, Deus não irá nos esquecer! Do contrário, ele tem expressamente declarado que, como seus "olhos estão sobre toda a terra", então, Ele "é amoroso com todo homem, e Sua misericórdia está sobre todas as suas obras". Conseqüentemente, ele está preocupado, a todo o momento, pelo que sobrevém a toda criatura sobre a terra; e, mais especialmente, por todas as coisas que sobrevém a alguns dos filhos dos homens. É difícil, de fato, compreender isto, é difícil acreditar nisto, considerando a maldade e a miséria, intricadas, que vemos de todos os lados. Mas nós devemos acreditar nisto, a menos que façamos de Deus um mentiroso; embora seja certo que nenhum homem pode compreender isto. Cabe a nós, então, nos humilharmos diante de Deus, e reconhecer nossa ignorância. Na verdade, como podemos esperar que um homem possa ser capaz de compreender um verme? Quanto menos se pode supor que um homem possa compreender a Deus!

Por que, como pode o finito medir o infinito?

14. Ele é infinito em sabedoria, assim como em poder: E toda Sua sabedoria está continuamente empregada em manejar todos os assuntos de Sua criação para o bem de todas as Suas criaturas. Porque Sua sabedoria e bondade seguem de mão em mão: Elas estão inseparavelmente unidas, e continuamente agem em concerto com o poder Altíssimo, para o bem verdadeiro de todas as Suas criaturas. Seu poder, sendo igual a Sua sabedoria e bondade continuamente coopera com elas. E para Ele todas as coisas são possíveis: Ele faz o que quer que lhe agrade, no céu e terra, e no mar, e todos os lugares profundos: E nós não podemos duvidar de Seu exercer todo Seu poder, como no sustentar, assim no governar, tudo que Ele fez.

15. Apenas ele que pode fazer todas as coisas, antes, não pode negar a si mesmo: Ele não pode contrariar a si mesmo, ou opor-se à sua própria obra. Não fosse por isto, ele destruiria todo o pecado, com sua dor concomitante, imediatamente. Ele aboliria a maldade de toda sua criação, e completamente subverteria toda sua própria obra, e desfaria tudo que ele tem feito, desde que Ele criou o homem sobre a terra. Porque Ele criou o homem, em sua própria imagem: Um espírito como Ele mesmo; um espírito dotado com entendimento, com vontade ou afeições, e liberdade; sem o que, nem seu entendimento, nem suas afeições, teriam sido de algum uso, nem ele teria sido capaz quer dos maus hábitos ou da virtude. Ele não poderia ser um agente moral, não mais do que uma árvore ou uma pedra. Se, portanto, Deus fosse assim para mostrar seu poder, certamente não mais haveria maus hábitos, mas, é igualmente certo que nem haveria alguma virtude no mundo. Fosse a liberdade do homem tirada, os homens seriam tão incapazes da virtude, quanto as pedras. Portanto (com reverência seja isto falado), o próprio Altíssimo não pode fazer isto. Ele não pode contradizer-se, ou desfazer o que fez. Ele não pode destruir, da alma  do homem, aquela imagem de si mesmo, na qual Ele o fez: E, sem fazer isto, ele não pode abolir o pecado e dor do mundo. Mas fosse isto para ser feito, implicaria em nenhuma sabedoria, afinal; mas meramente uma façanha da Onipotência. Considerando que toda as múltiplas sabedorias de Deus (assim como todo seu poder e bondade) está colocado no governar o homem como homem; não como um bloco ou pedra, mas como um espírito inteligente e livre, capaz de escolher o bem ou o mal. Nisto, aparece a profundidade da sabedoria de Deus, em sua providência adorável; no governar os homens, de maneira não a destruir, quer o entendimento deles, vontade, ou liberdade. Ele comanda todas as coisas, ambos no céu e terra; para assistir o homem no ater a finalidade de sua existência, no operar sua própria salvação, até onde ela pode ser feita, sem compulsão, sem governar sua liberdade. Um inquiridor atento pode facilmente discernir, toda a estrutura da providência divina é tão constituída quanto a fornecer ao homem toda possibilidade de ajuda, com o objetivo de seu fazer o bem e evitar o mal, que pode ser feito, sem transformar o homem em uma máquina; sem torná-lo incapaz da virtude ou maus hábitos, recompensa ou punição.

16. Neste meio tempo, tem sido notado, por um escritor devoto, que aqui está, como ele expressa isto, um círculo triplo da providência divina, além daquele que preside sobre todo o universo. Nós agora não falamos daquela mão governante que dirige a criação inanimada; que mantém o sol, lua, e estrelas em suas situações, e guia seus movimentos; nós não nos referimos ao seu cuidado, com a criação animal; toda parte da qual nós sabemos está sob o governo Dele, "quem dá alimento para o gado, e os jovens corvos que chamam por ele"; mas nós aqui falamos daquela providência superintende que cuida dos filhos dos homens. Cada um desses é igualmente distinguido do outro, por aqueles que corretamente observam os caminhos de Deus. O círculo externo inclui toda a raça humana; todos os descendentes de Adão; todas as criaturas humanas que estão dispersas sobre a face da terra. Isto inclui não apenas o mundo cristão, aqueles que são chamados pelo nome de Cristo, mas os maometanos também, que consideravelmente excedem, até mesmo, os cristãos nominais; sim, e os pagãos igualmente, que muito além excedem os maometanos e cristãos, colocados juntos. "Ele é o Deus dos judeus", diz o Apóstolo, "e não dos gentios também?".  E, assim, nós podemos dizer: Ele é o Deus dos cristãos, e não dos maometanos e ateus? Sim, indubitavelmente, dos maometanos e pagãos também. Seu amor não está confinado: "O Senhor é amor junto a todo homem e sua misericórdia está sobre todas as suas obras".  Ele cuida dos homens proscritos: Verdadeiramente pode ser dito:

Livres, como o ar tuas generosidades fluem, sobre todas as tuas obras: Os feixes de luz de tuas misericórdias, difusos, como o nascer do sol.

17. Ainda assim, pode-se admitir que Ele toma um cuidado mais imediato com aqueles que estão compreendidos no segundo; no círculo menor; que inclui todos que são chamados cristãos; todos que professam acreditar em Cristo. Nós podemos razoavelmente pensar que esses, em algum grau, honram a ele, pelo menos, mais do que os pagãos o fazem: Deus igualmente, em alguma medida, honra a eles, e tem uma preocupação mais próxima por eles. Através de muitas instâncias, parece que o príncipe deste mundo não tem completo poder sobre esses, assim como sobre os pagãos. O Deus a quem eles professam sempre servir, em alguma medida, mantém sua própria causa; de modo que os espíritos da escuridão não reinam tão incontroláveis sobre eles, assim como eles fazem sobre o mundo pagão.

18. Dentro do terceiro, no circulo mais interior, estão contidos apenas os cristãos reais; aqueles que adoram a Deus, não na forma apenas, mas em espírito e em verdade. Aqui estão incluídos todos que amam a Deus, ou, pelo menos, verdadeiramente temem a Deus e operam retidão; todos em quem está a mente que estava em Cristo, e caminham como Cristo também caminhou. As palavras de nosso Senhor acima citadas peculiarmente se referem a esses. É a esses, em especial que ele diz? "Até mesmo os cabelos de sua cabeça são todos numerados". Ele vê suas almas e seus corpos; ele toma peculiar cuidado de todos os temperamentos, desejos e pensamentos; todas as suas palavras e ações. Ele assinala todos os seus sofrimentos, interiores e exteriores, e a busca de onde eles surgem; de modo que podemos bem dizer:

Tu conheces as dores que teu servo sente,
Tu ouves o choro de teus filhos,
E seus melhores desejos para cumprir,
Tua graça está sempre por perto.

Nada relativo a esses é tão grande; nada tão pequeno, para a atenção Dele. Ele tem seus olhos continuamente, como que junto a toda pessoa, em particular, que é membro desta sua família; como junto a toda a circunstância que se refere, tanto às suas almas ou corpos; tanto ao estado interior quanto exterior; onde tanto a felicidade presente quanto eterna é, em algum grau, participante.

19. Mas o que dizem os homens sábios do mundo a isto? Eles respondem, com toda prontidão: "Quem duvida disto? Nós não somos ateístas. Nós todos reconhecemos a providência: Ou seja, a providência geral; porque, de fato, a providência específica, da qual alguns falam. Nós não conhecemos do que é feita: Certamente os pequenos assuntos dos homens estão longe do cuidado do grande Criador e Governador ou do universo! Assim sendo: Ele vê com olhos iguais, como Senhor de todos, um herói que perece e um pardal que cai".

Ele o faz, de fato? Eu não posso pensar isto; porque (o que quer que aquele fino poeta fez, ou seu patrão, a quem ele tão profundamente menosprezou, e ainda assim, grosseiramente lisonjeou), eu acredito na Bíblia, em que o Criador, ou Governador do mundo, me diz completamente o contrário. Que ele tem um cuidado terno por estas criaturas, eu sei: Ele o faz em parte: "toma cuidado com o rebanho": Ele "providencia alimento para o gado", assim como para "os vegetais para o uso dos homens".  "Os leões rosnando em busca de sua presa, buscam pelo seu alimento, de Deus". "Ele abre sua mão, e preenche todas as coisas vivas com abundância".

            Os vários bandos do mar e terra
            Com respeito à necessidade comum, concordam;
            Todos esperam tua mão que distribui
            E têm seus donativos diários de ti.
            Eles reúnem o que teus estoques dispersam.
            Sem a preocupação deles de prover;
            Tu abres tua mão; o universo,
            O mundo, em súplica, é todo suprido. 

Nosso Pai celeste alimenta as aves do ar: Mas assinale! "Você não é muito melhor do que eles?". Ele, então, não "alimenta muito mais você", que é proeminente, através de tantas vantagens? Ele, neste sentido, não olha para você e eles, "com olhos iguais"; não coloca você no mesmo nível que eles; menos do que tudo, ele não coloca você no mesmo nível que brutos, com respeito á vida e morte: "Preciosa, às vistas do Senhor, é a morte de seus santos". Você realmente pensa que a morte de um pardal é igualmente preciosa às vistas Dele? Ele nos diz, de fato, que "nenhum pardal cai ao solo, sem nosso Pai"; mas ele pergunta, ao mesmo tempo: "Você não tem mais valor do que muitos pardais?".

20. Mas, no suporte de uma providência geral, em contradição com uma específica, o mesmo elegante poeta a escreve como uma máxima inquestionável:

A Causa Universal age, não por leis parciais, mas por leis gerais.

Plenamente significando que Ele nunca se desvia daquelas leis gerais em favor de alguma pessoa em específico. Esta é a suposição comum; mas que é completamente inconsistente com todo o teor das Escrituras: Porque se Deus nunca se desvia dessas leis gerais, então, nunca existiu um milagre no mundo; vendo-se que todo milagre é um desvio das leis naturais. O Altíssimo confinou a si mesmo a essas leis gerais, quando ele dividiu o Mar Vermelho? Quando Ele comandou as águas para se situarem na cabeceira, e fez um caminho para seus remidos passarem? Ele agiu através de leis gerais, quando ele fez com que o sol ficasse parado pelo espaço de todo um dia? Não; nem em alguns dos milagres que estão registrados no Velho e Novo Testamento.

21. Mas é na suposição de que o Governador do mundo nunca se desvia daquelas leis gerais, que o Sr. Pope acrescenta aquelas bonitas linhas em triunfo complete, como tendo agora claramente ganho o ponto: -

Pode o Etna ardente, se o sábio requerer,
Esquecer o trovão, e anular seu fogo?
Sobre o ar ou mar, novos movimentos de serem cedidos
Ó Betel inocente! Para aliviar teu peito!
Quando a montanha solta treme do alto,
Deverá a gravitação cessar, se você se for?
Ou algum velho templo oscilando em sua queda,
Porque a cabeça de Chatre conserva a parede pendente?

Nós respondemos que, se agrada a Deus continuar a vida de algum de seus servos, ele suspenderá esta ou alguma outra lei da natureza: A pedra não deverá cair; o fogo não deverá queimar; a inundação, não deverá fluir; ou, ele dará incumbência a seus anjos, e nas mãos eles, eles deverão segurá-lo, através e acima de todos os perigos!

22. Admitindo, então, que, no curso comum da natureza, Deus não age através de leis naturais, ele nunca impede a si mesmo de fazer exceções a elas, quando quer que lhe agrade; tanto suspendendo aquela lei, em favor daqueles que o amam, ou empregando seus anjos poderosos: Através de ambos os meios, Ele pode livrar de todos os perigos aqueles que confiam Nele.

"O que! Você espera milagres, então?". Certamente, eu sim, se eu acredito na Bíblia: Porque a Bíblia me ensina que Deus ouve e responde oração: Mas cada resposta à oração é, propriamente, um milagre. Porque, se as causas naturais tomam seu curso; se as coisas seguem seu caminho natural, não é resposta, afinal. A gravitação, portanto, deve cessar, ou seja, cessar de operar, quando quer que o Autor se agrade. Os homens do mundo não podem entender essas coisas? Não é de surpreender: Foi observado há muito tempo: "Um homem sem sabedoria não considera isto, e um tolo não entende".

23. Mas eu ainda não terminei com esta mesma providência geral. Pela graça de Deus, eu irei analisá-la até o fundo: E eu espero mostrar que ela é tal absurda tão completo, que qualquer homem consciente deve ficar extremamente envergonhado a respeito.

Você diz: "Você admite uma providência geral, mas nega uma específica". E qual é a geral, de qualquer tipo que seja, que não inclui as especificas? Não é toda geral, necessariamente feita para suas diversas particularidades? Pode você exemplificar alguma geral que não seja? Diga-me algum gênero, se você puder que não contenha variedades? O que é isto que constitui um gênero, a não ser tantas variedades juntas? O que, eu imploro, existe um todo que não contenha partes? Mero absurdo e contradição! O todo, qualquer que seja, deve, na natureza das coisas, ser feito para suas diversas partes; de tal maneira que, se não existem partes, não pode existir todo.
24. Como este é um ponto da mais extrema importância, nós podemos considerar isto um pouco mais além. O que você quer dizer por uma providência geral, distinguida de uma parte? Você quer dizer uma providência que superintende apenas as partes mais largas do universo? Supondo-se o sol, a lua, e estrelas. Isto não diz respeito à terra também? Você admite que sim. Mas isto igualmente não diz respeito aos habitantes dela? Ou, o que a terra, uma massa inanimada de matéria, significa? Não é um espírito, um herdeiro da imortalidade, de um valor maior do quer toda a terra? Sim, embora você acrescente a ela o sol, a luz e as estrelas? Mais do que isto, toda a criação inanimada? Nós não poderíamos dizer: "Esses devem perecer; mas" este "permanecerá: Esses todos deverão apodrecer, como acontece com o vestuário"; mas este (deve ser dito em um sentido menor, até mesmo das criaturas) continua "o mesmo, e seus anos não devem desvanecer-se?".  

25. Ou você quer dizer, quando você afirma uma providência geral; distinta de uma pequena parte, que Deus se preocupa apenas com algumas partes do mundo, e não cuida dos outros? Quais partes Ele cuida? Aqueles foram, ou aqueles dentro do sistema solar? Ou ele se preocupa com algumas partes da terra, e não outras? Quais partes? Apenas aqueles dentro das zonas temperadas? Quais partes, então, estão sob o cuidado da providência Dele? Onde você colocará a linha? Você excluir dela aqueles que vivem nas zonas tórridas? Ou aqueles que habitam dentro dos círculos árticos: Não, antes diga: "O Senhor é amoroso com todo homem", e Seu cuidado "está sobre todas as Suas obras".

26. Você quer dizer (porque nós gostaríamos de nos certificar do seu significado, se você tem algum significado afinal) que a providência de Deus não se estende a todas as partes da terra, com respeito aos grandes e singulares eventos, tais como o surgimento e queda de impérios; mas que a pequena preocupação deste ou daquele homem é indigna da orientação do Altíssimo? Então, você não considera que o grande e pequeno são termos meramente relativos, que têm lugar apenas com respeito aos homens. Com respeito ao Altíssimo, o homem e todas as preocupações dos homens são nada, menos do que nada, diante Dele. E nada é pequeno, às vistas deles, que, em algum grau, afete o bem-estar de alguém que teme a Deus e opera retidão. O que se torna, então, da providência geral, exclusiva de uma partícula? Que seja, para sempre rejeitado por todos os homens racionais, como absurdo, um absurdo autocontraditório. Nós podemos, então, resumir toda a doutrina bíblica naquelas belas palavras de Agustinho: Ita praesidet singulis sicut universis, et universis sicut singulis!

            Pai, quão amplamente tua glória brilha,
            Senhor do universo e meu!
            Tua bondade observa o todo
            Como se todo o mundo fosse uma só alma;
            Como se eu permanecesse em teu cuidado, único!

27. Nós aprendemos deste panorama resumido da providência de Deus, Primeiro, a colocar toda a nossa confiança Nele, que nunca falhou com aqueles que o buscam. Nosso abençoado Senhor, ele mesmo, fez uso da grande verdade agora diante de nós. "Não tema, portanto": Se você verdadeiramente teme a Deus, você não precisa temer ninguém além. Ele será uma torre forte para todo que confia Nele, diante da face de seus inimigos.  O que existe, tanto no céu, quanto na terra, que pode causar mal a você, enquanto você está sob o cuidado do Criador e Governador do céu e terra! Que toda a terra e todo o inferno combinem contra vocês; sim, e toda criação animada e inanimada; eles não podem lhe causar dano, enquanto Deus está do seu lado: Sua delicadeza favorável cobre você como um escudo.
28. Proximamente aliada a esta confiança em Deus, está a gratidão que devemos por sua carinhosa proteção. Que aqueles aos quais o Senhor assim livra das mãos de todos os seus inimigos dêem graças. Que bênção inexplicável é estar, sob o cuidado especifico Dele que tem todo o poder no céu e terra! Como podemos louvar suficientemente a Ele, enquanto estamos, sob as suas asas, e sua fidelidade e verdade são nossos escudos e proteção!

29. Mas, neste meio tempo, nós devemos tomar o cuidado extremo de caminhar humildemente e intimamente com Deus. Caminhar humildemente: Porque, se você, de alguma forma, rouba de Deus a honra Dele, ao atribuir alguma coisa a si mesmo, as coisas que teriam sido para sua saúde provarão a você uma "ocasião para queda". E caminhar intimamente: Veja que você tem uma consciência nula de ofensa, em direção a Deus e ao homem. Por quanto tempo você fizer isto, você terá o cuidado específico de seu Pai que está no céu. Mas que a consciência do cuidado dele por você, não o torne descuidado, indolente ou preguiçoso: Do contrário, enquanto você é penetrado com aquela verdade profunda, "a ajuda que é feita sobre a terra, Ele mesmo a faz"; seja tão sincero e diligente no uso de todos os meios, como se você fosse seu próprio protetor.

Por fim: Em que condição melancólica, estão aqueles que não acreditam que existe alguma providência; ou, que vêm exatamente para o mesmo ponto, e não um específico! Em qualquer situação que eles estejam, por quanto tempo eles estiverem no mundo, eles estão sujeitos aos inúmeros perigos, que nenhuma sabedoria humana pode prever, e nenhum poder humano pode resistir. E não existe ajuda! Se eles confiam em homens, eles os encontram "enganosos, em suas medidas". Em muitos casos, eles não podem ajudar; em outros, eles não irão. Mas mesmo tão dispostos, eles morrerão: Portanto, a ajuda do homem é vã, e a de Deus está muito acima; fora das vistas deles: Eles não esperam ajuda Dele. Esses modernos epicuristas (como os antigos) aprenderam que…
 
A Causa Universal atua, não por leis parciais, mas gerais.

Ele apenas cuida do próprio grande globo; não de seus insignificantes habitantes. Ele não presta atenção como essas…    

Formigas errantes rastejam, ao acaso, na bolha suspensa no ar.

Quão desconfortável é a situação daquele homem que não tem esperança mais além do que esta! Mas, por outro lado, quão inexplicavelmente "feliz é o homem que tem o Senhor para sua ajuda, e cuja esperança está no Senhor seu Deus!'; que pode dizer: "Eu tenho colocado o senhor sempre diante de mim; porque ele está do meu lado direito, eu não devo me mover!". Portanto, "embora eu caminhe através de do vale da sombra da morte, eu não temerei mal algum: Porque tu estás comigo; tua vara e teu bastão me confortam".

[Editado por Chris Thompson, estudante da Northwest Nazarene College (Nampa, ID), com correções de George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.]

A REFORMAS DOS CUSTUMES

Agosto 6th, 2008

SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)

A  REFORMA  DOS  COSTUMES

Pregado perante a sociedade para a reforma dos costumes, no domingo, 30 de janeiro de 1763, na capela de West- Street, Sevendials.
“Quem se levantará comigo contra o maligno?” (Salmo 94.16)
1. EM todos os tempos, os homens que nem temem a Deus, nem respeitam ao homem combinaram e formaram federações, no intuito de levarem avante as obras das trevas. E nisso têm-se mostrado sábios em suas gerações, porque por esse meio mais eficientemente promovem o reino de seu pai, o diabo, o que de outra maneira não poderiam fazer. Por outro lado, os homens que temem a Deus e desejam a felicidade de seus semelhantes, têm, em todas as eras, Julgado necessário unir-se de modo a opor-se às obras das trevas, a difundir o conhecimento de Deus seu Salvador e promover seu reino sobre a terra. Ele próprio, na verdade, os instruiu a fazerem assim. Desde o tempo em que os homens apareceram sobre a terra, Ele os ensinou a unirem-se em seu serviço e fundiu-os num só corpo pelo seu Espírito. Para esse mesmo fim Deus os associou, “para que pudessem destruir as obras do diabo”, primeiro nos que já estavam congregados e, por meio destes, e todos os que se acercassem deles.
2. Este é o objetivo original da Igreja de Cristo. É uma corporação de homens unidos estreitamente para o fim de, primeiro, salvar cada um sua própria alma; depois, presta  auxilio uns aos outros, no operar sua própria salvação; e, finalmente, quanto estiver ao seu alcance, salvar a todos os homens da miséria presente e futura, derribar o reino de Satanás e firmar o reino de Cristo. E este deve ser o continuo empenho e esforço de todo membro de sua Igreja; de modo contrário ele não será digno de ser chamado membro dela, assim como não é membro vivo de Cristo.
3. Conseqüentemente, este deve ser o constante cuidado e esforço dos que se acham unidos nestes reinos, e são comumente chamados – a Igreja da Inglaterra. Acham-se unidos para esse mesmo fim, isto é, para se oporem ao diabo e a todas as suas obras: movendo guerra contra o mundo e a carne, seus constantes e fiéis aliados. Mas, respondem eles, dê fato, às finalidades de sua união? Todos os que se chamam “membros da igreja da Inglaterra” estão cordialmente empenhados na oposição às obras do diabo e combatendo contra o mundo e a carne? Ai! Não podemos dizer isto. Temo que, ao contrário, a maior parte deles sejam o mundo – o povo que não conhece a Deus para qualquer propósito de salvação; dia após dia esses homens estão-se deleitando, em vez de “mortificar a carne, com suas afeições e cobiças”, e fazendo as obras do diabo, que eles deveriam estar especialmente empenhados em destruir.
4. É, portanto, necessário ainda, mesmo neste pais cristão (como nós delicadamente chamamos a Grã-Bretanha), sim, nesta igreja Cristã (se pudéssemos dar este título ao grosso de nossa nação), que alguns se “levantem contra o maligno” e se unam “contra os malfeitores”. Realmente, nunca houve maior necessidade do que há nestes dias, de que “os que temem a Deus falem. freqüentemente juntos” sobre este mesmo assunto, de modo que “levantem um padrão contra a iniqüidade”; que ora inunda a terra. Há motivos de sobra para que todos os servos de Deus se unam contra as obras do diabo, unindo os corações, os conselhos e os esforços para se arregimentarem em torno de Deus, para oporem diques, tanto quanto deles dependa, a esses “dilúvios de Impiedade”.
5. Para tal fim, umas poucas pessoas, em Londres, ao findar o século passado, uniram-se, e, à maneira do tempo, receberam o nome de – Sociedade para a Reforma dos Costumes. Incrível soma de bem foi feito por essa Sociedade, durante perto de quarenta anos. Mas, depois, tendo a maior parte dos membros fundadores ido a receber sua recompensa, os que lhes sucederam se tornaram fracos no espírito ê abandonaram o trabalho; de modo que, poucos anos faz, a Sociedade se extinguiu, sem que qualquer remanescente permanecesse no reino.
6. É da mesma natureza a Sociedade que ultimamente se formou. Tenho em vista mostrar, primeiro, a natureza de seu objetivo e os passos que para isso têm sido dados; em segundo lugar, mostrarei a excelência dela, examinando as várias objeções em contrário; em terceiro lugar, mostrarei quais devem ser os homens que se entreguem a tal desígnio; e, em quarto lugar, com que espírito e de que maneira devem eles proceder, na consecução daqueles objetivos. Concluirei com uma aplicação dirigida a eles e a todos os que temem a Deus.

I

1. Mostrarei, em primeiro lugar, a natureza de seu desígnio e os passos que para isso têm dado. Foi no dia do Senhor, em agosto de 1757, que, num pequeno grupo que se formara para oração e conversação
religiosa, se fez menção da grande e abusiva profanação daquele dia sagrado, por parte de pessoas comprando e vendendo, mantendo o comércio aberto, bebendo pelas tavernas, permanecendo de pé ou assentadas nas ruas, nas estradas ou nos campos, vendendo suas mercadorias como nos dias comuns; especialmente em Moorfields, que então se enchia desses transgressores todos os domingos da manhã à noite. Considerou-se que um meio devia ser empregado para remover essas ofensas – e resolveu-se que seis dentre eles fossem, pela manhã, à procura de Sir John Fielding, para pedir instruções. Eles assim o fizeram: Sir Fielding aprovou a Idéia e lhes recomendou o meio de pô-la em execução.
2. Primeiro enviaram petições a S. Excia. o Lord Maior e ao Tribunal de Aldermen; às justiças com sede em Hicks Hall e às de Westminster; e receberam de todas essas venerandas cortes o maior encorajamento no sentido de prosseguirem na obra.
3. Em seguida julgou-se conveniente manifestar semelhante intenção a muitas pessoas de posição eminente e ao corpo de clérigos, assim como aos ministros de outras denominações, pertencentes às várias igrejas e capelas nas cidades de Londres e Westminster e seus arredores; e os fundadores da Sociedade tiveram a satisfação de encontrar o mais afetuoso acolhimento e geral aprovação por parte deles.
4. Então imprimiram e distribuíram, à sua própria  custa, vários milhares de livros de instrução às autoridades policiais e a outros oficiais da municipalidade, explicando e enaltecendo seus diversos deveres: e, para encarar de frente, tanto quanto possível, a necessidade de proceder-se à imediata execução das leis, os fundadores igualmente imprimiram e divulgaram, em todos os recantos da cidade, no intuito de persuadir os transgressores acerca da quebra do domingo, extratos de atos do Parlamento contra esse abuso, dando aviso aos culpados.
5. Preparado o caminho por meio daquelas medidas, foi no começo do ano de 1758 que, depois  de reiterados avisos, que eram com freqüência desprezados, foram dadas informações aos magistrados contra pessoas que profanavam o dia do Senhor. Por esse meio eles primeiro limparam as ruas e os campos dos transgressores notórios que, sem qualquer respeito a Deus ou ao rei, vendiam suas mercadorias da manhã à noite. Em seguida passaram a uma empresa mais difícil: evitar a bebedeira no dia do Senhor, evitar que os homens dissipassem em tavernas o tempo que deveria ser votado ao culto a Deus. Neste ponto os fundadores se expuseram a abundantes censuras, insultos e ofensas de toda espécie. Seus oponentes foram não só os beberrões e os que os envenenavam, os taverneiros, mas alguns homens ricos e considerados, principalmente os proprietários daquelas tascas parte dos que lhes forneciam bebidas e, em geral, todos os que auferiam lucros à custa de seus pecados. Alguns desses eram seres humanos não somente de recursos, mas homens de autoridade; e até, em mais de um caso, aconteceu que justamente perante eles é que os transgressores foram apresentados. O tratamento que dispensaram aos denunciantes naturalmente foi de molde a incitar “essas bestas do povo” a lhes seguirem o exemplo e a encarar como indivíduos indignos de viver sobre a terra ás que assim.  promoviam o cumprimento da lei. Daí o não terem escrúpulos de não apenas tratá-los com a mais baixa linguagem, não apenas lançar-lhes lama, pedras ou o que quer que fosse que lhes viesse às mãos, mas de muitas vezes os espancar sem piedade, derribando-os sobre as calçadas
ou ao longo das sarjetas. E, se os não matavam, não era por falta de vontade; mas os freios eles os tomaram nos dentes.
6. Tendo, entretanto, recebido auxílio de Deus, os membros da Sociedade conseguiram impedir que os padeiros gastassem, do mesmo modo, tão grande parte do dia do Senhor no exercício dos misteres de sua profissão. Muitos desses foram mais nobres do que os estalajadeiros. Longe de se ressentirem com a medida, ou de as encararem como afronta, diversos, que tinham sido levados pela torrente do costume a agir em desacordo com a própria consciência, agora sinceramente lhes agradeciam esse serviço e reconheceram-no como real beneficência.
7. Purificadas as ruas, os campos e as tavernas dos violadores do domingo, eles se voltaram para outras espécies de ofensores, tão nocivos à sociedade como os outros: os jogadores de várias qualidades. Alguns eram das classes mais baixas e vis, vulgarmente chamados “jogadores”, que faziam da exploração dos jovens e dos inexperientes o seu comércio, despojando-os de todo seu dinheiro. Depois de os terem reduzido à miséria, freqüentemente lhes ensinavam o mesmo mistério de iniqüidade. Muitos desses antros eles os destruíram, levando não poucos dentre os jogadores a ganharem honestamente o seu pão, pelo suor de seu rosto e pela indústria de suas mãos.
8. Crescendo em número e em força, os membros da Sociedade estenderam suas vistas e começaram não somente a reprimir o juramento profano, mas a remover das ruas outra ofensa pública e escândalo ao nome cristão – a prostituição vulgar. Muitas das pessoas que a isso se entregavam foram detidas em meio de sua carreira de audaciosa iniqüidade. E, no intuito de descerem até a raiz da enfermidade, denunciaram multas das casas que mantinham as decaídas, processaram-nas de acordo com a lei e suprimiram-nas totalmente. E mesmo algumas das pobres, desoladas mulheres, embora decaídas até “O mais baixo nível da humana infâmia”, reconheceram a graciosa providência de Deus e romperam com seus pecados mediante perdurável arrependimento. Muitas foram colocadas em outros lugares e outras foram enviadas ao Asilo Madalena.
9. Se me for permitida pequena digressão, direi: quem pode suficientemente admirar a sabedoria da Divina Providência, no dispor os tempos e as épocas, de modo que uma ocorrência corresponda à outra? Por exemplo: justamente na ocasião em que muitas daquelas pobres criaturas, detendo-se na carreira do pecado, concebiam o
desejo de levar vida melhor, como a responder à triste pergunta: “Mas, se eu deixar o caminho em que estou que farei para viver? Não sou senhora de ofício nenhum e não tenha amigos que me possam receber”… Dizia eu: justamente nesse tempo Deus preparou o Asilo Madalena. Ali as que não tinham ofício, nem amigos que as recebessem, eram acolhidas com toda a ternura; sim, elas podiam viver, e com conforto, providas como estavam de todas as coisas necessárias “à vida e à piedade”.
10. Voltando atrás. O número de pessoas levadas à justiça,de agosto de 1757 a agosto de 1762, foi de: 9.596 Dessa época até o presente Por jogos proibidos e juramentos profanos: 40
Por quebra do domingo: 400 Mulheres decaídas e mantenedores de casas de tolerância: 550 Por expor à venda figuras obscenas: 2 Total geral: 10.588
11. Na admissão de membros da Sociedade nenhuma atenção se dá a qualquer seita particular ou a partido. Quem quer que seja julgado, após investigação, ser homem reto, será prontamente admitido. E ninguém que tenha intuitos egoísticos ou pecuniários nela permanecerá por muito tempo, não só porque ele nada pode ganhar por meio da Sociedade, mas começará prontamente a gastar, uma vez que terá de contribuir, tão logo se torne associado. O clamor costumeiro é, na verdade, este: “Esses são, todos eles whitefieldistas”. É um grande erro. Cerca de vinte dos contribuintes habituais mantêm, todos eles, relações com Whitefield; cerca de cinqüenta estão relacionados com Wesley; cerca de vinte, que são da Igreja Estabelecida, não têm ligação com nenhum dos dois; e cerca de setenta são dissidentes, o que perfaz o total de cento e sessenta. Há, realmente, muitos mais que auxiliam a obra por meio de contribuições eventuais.

II

1. Esses foram os passos dados na consecução daquele objetivo. Devo mostrar, em segundo lugar, a excelência da Sociedade, não obstante as objeções que se têm levantado contra ela. Ora, tal excelência ressalta de diversas considerações. Primeiro, mover campanha aberta contra toda a Impiedade e Injustiça que cobrem a terra como num dilúvio, é um dos meios mais nobres de confessar à Cristo em face de seus inimigos. Isto é dar glória a Deus, e mostrar à humanidade que, ainda nestes tempos calamitosos,
“Embora poucos, há os que preferem a fé E a piedade à vista de Deus”. E que coisa mais excelente há do que dar a Deus a honra que é devida a seu nome? proclamar, por uma prova mais forte do que as palavras, mesmo pelo sofrimento e correndo todos os riscos: “Verdadeiramente há uma recompensa para os justos; indubitavelmente há um Deus que julga a terra”?
2. Quão excelente é o desígnio de evitar em qualquer medida, a afronta feita a seu glorioso nome, a injúria que se faz à sua autoridade e o escândalo lançado sobre nossa santa religião pelas grosseiras, flagrantes transgressões praticadas pelos que são ainda chamados pelo nome de Cristo! Reprimir, de algum modo, a torrente de vícios; combater as ondas de impiedade, remover, em qualquer sentido, as ocasiões de blasfemar o poderoso nome por que somos chamados – eis uma das mais nobres iniciativas que pode possivelmente conceber o coração do ser humano.
3. E, como semelhante desígnio evidentemente tende para a “glória de Deus nas alturas”, assim não menos manifesto é que ele conduz ao estabelecimento da “paz sobre a terra”. Porque, como todo pecado diretamente tende tanto a destruir nossa paz com Deus como a sustentar com Ele aberto dissídio, a banir a paz de nosso espírito e colocar a espada de cada homem contra seu próximo – assim, o que previne ou remove o pecado deve, em medida igual, promover a paz, tanto a paz em nossa própria alma, como a paz com Deus e a paz de uns para com outros. Tais são os genuínos frutos desse empreendimento, mesmo no mundo presente. Mas, quem poderia limitar nossas vistas aos estreitos limites do tempo e do espaço? Antes elas os transpõem rumo à eternidade. E que frutos podemos achar ali? Fale o apóstolo: “Meus irmãos, se algum de vós se desviar da verdade e algum outro o converter”, não a esta ou àquela opinião, mas a Deus, “sabei que aquele que converter um pecador do erro do seu caminho, salvará uma alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5.19-20).
4. Os benefícios desse empreendimento não visam, entretanto, somente os indivíduos, sejam os que induzem outros ao pecado, ou os que estão sujeitos a ser aliciados e destruídos por eles; mas a toda a comunidade a que pertencemos. Porque, não é uma segura observação que “a justiça exalta as nações”? E não é igualmente certo, de outro lado, que “o pecado é o opróbrio dos povos”, sim, e traz a maldição de Deus sobre eles? Na proporção em que se promove a justiça de toda espécie, avança, pois, o progresso nacional. Na medida em que o pecado, principalmente o pecado ostensivo, Se reprime, a maldição e o opróbrio se afastam de nós. Quem quer, pois, que trabalhe nesse sentido, é um benfeitor de todos; os tais são verdadeiros amigos de seu rei e de sua nação. E na mesma proporção em que seu desígnio se traduza em fatos, não pode haver dúvida de que Deus dará prosperidade ao pais, cumprindo sua palavra fiel: “Honrarei aos que me honrarem”.
5. Mas, objeta-se: “Embora seja excelente esse desígnio, ele não te compete. Pois não há pessoas a quem a repressão daquelas ofensas e a punição dos transgressores oficialmente pertencem? Não há oficiais de policia e outros funcionários municipais, que estão ligados por juramento a essa mesma tarefa?” Há. Os oficiais de polícia e os fabriqueiros, em particular, são obrigados, por solene juramento, a dar parte dos profanadores do dia do Senhor e de todos os outros pecadores escandalosos. Mas, se eles não fazem isto – se, não obstante seus juramentos, não se preocupam com o assunto, cabe a todos os que temem a Deus, que amam a humanidade e que desejam o bem de seu rei e de seu país, levar avante sua tarefa, como mesmíssimo vigor que teriam se não existissem autoridades, pois que uma só coisa é não existirem estas e, havendo-as, não cumprirem seu dever.
6. “Mas isto é apenas um pretexto: seu real objetivo é angariar dinheiro em troca de informações.” Assim tem-se afirmado freqüente e desabusadamente, mas sem a mínima sombra de verdade. O contrário pode ser provado por um milhar de exemplos: nenhum membro da Sociedade aceita qualquer parte do dinheiro que é por lei atribuído ao denunciante. Nunca o fizeram desde o começo. Nem nenhum deles jamais recebeu qualquer coisa para retirar sua denúncia. Este é outro erro, senão escandaloso ultraje, para o qual não há o menor fundamento.
7. “O desígnio é, porém, impraticável. O vício se ergueu a tal altura, que é impossível suprimi-lo, especialmente por tais meios; pois, que pode um punhado de gente pobre fazer em oposição a todo o mundo?” “Aos homens isto é impossível, mas não a Deus.” E eles não confiam em si mesmos, mas em Deus. Embora os patronos do vício sejam tão fortes, para Ele não são mais do que gafanhotos. E todos os meios lhe são iguais: para Deus não há diferença em “livrar por muitos ou por poucos”. O pequeno número, portanto, dos que estão ao lado do Senhor, não é nada, nem o grande número dos que estão contra Ele. Deus fará o que lhe aprouver – e “não há conselho, nem força contra o Senhor”.
8. “Se o fim que almejais é, realmente, reformar os pecadores, escolhestes os meios piores. É a Palavra de Deus que deve fazer isto, e não as leis humanas; tal obra pertence aos ministros, e não aos magistrados: logo, o apelo a estes somente pode produzir uma reforma exterior, mas não traz mudança de coração.”
É verdade que a Palavra de Deus é o principal meio ordinário pelo qual Ele transforma tanto o coração como a vida dos ho-mens; e isto Deus o faz principalmente pelos ministros do Evangelho. Mas é igualmente verdade que o magistrado é “ministro de Deus”; e que ele foi estabelecido por Deus para ser “o terror dos malfeitores”, nestes executando as leis humanas. Se isto não muda os corações, o evitar, todavia, o pecado exterior já é um valioso triunfo alcançado. Haverá menor desonra feita a Deus; menor escândalo dado à nossa santa religião; menor maldição e opróbrio sobre nosso país; menos tentação armada no caminho dos outros; sim, e menos ira entesourada pelos próprios pecadores para o dia da ira.
9. “Não; mas ainda há mais: tais medidas tornam a muitos deles hipócritas, pretendendo ser o que não são outros, por serem expostos à vergonha e compelidos a despesas, tornam-se impudentes e desesperados na maldade; de modo que, na realidade, nenhum deles se torna melhor, se porventura não vem a ser pior do que o era dantes.” Isto constitui um erro a mais. Porque, (1) Onde estão esses hipócritas? Não conhecemos ninguém que pretenda ser o que não é. (2) Expor à vergonha os transgressores obstinados e obrigá-los a despesas, não os torna desesperados na ofensa, mas temerosos de ofender. (3) Alguns deles, muito longe de se tornarem piores são substancialmente melhores; todo o teor de sua vida mudou-se. Sim, (4) Alguns estão interiormente mudados, até mesmo “das trevas para a luz e do poder de Satanás para o poder de Deus”.
10. “Muitos, porém, não estão convencidos de que comprar e vender no dia do Senhor seja pecado.”
Se não estão convencidos, devem estar; é mais do que tempo de que o estejam. O assunto é tão claro quanto pode sê-lo. Porque, se uma aberta e voluntária quebra, tanto da lei de Deus como da lei do país, não é pecado, que é, por favor? Se tal violação, tanto da lei humana como da lei divina, não for punida porque um homem não está convencido de que seja pecado, chegou-se ao fim de toda a execução da justiça, e todos os seres humanos podem viver como quiserem!
11. “Mas primeiro devem ser tentados meios suasórios”. Devem; e de fato o são. Uma suave admoestação é feita a todo transgressor, antes que contra ele se ponha a lei em execução; nem ninguém é processado sem que tenha expresso aviso de que isto se fará a não ser que ele evite o processo, removendo a causa que lhe dá fundamento. Em qualquer caso, o método suasório é usado segundo a natureza do caso o admita, e os meios mais severos não são aplicados, a não ser que se tornem absolutamente necessários ao fim em vista.
12. “Bem; mas depois de todo esse movimento em prol da reforma, que bem real tem sido feito?” Bem indizível; muito mais abundante do que alguém poderia esperar em tão curto prazo, considerando-se o pequeno número dos instrumentos e as dificuldades que eles têm a vencer. Muitos males já têm sido evitados e muitos removidos. Muitos pecadores foram exteriormente reformados; alguns foram mudados interiormente. A honra daquele cujo nome trazemos, tão abertamente ofendida, tem-se abertamente defendido. E não é fácil determinar quantas e quão enormes bênçãos, mesmo desta pequena campanha empreendida por Deus e sua causa contra seus ousados inimigos, já se derramaram sobre toda a nação. Em conjunto, pois, após todas as objeções que se possam levantar, os homens razoáveis devem concluir que empreendimento mais excelente dificilmente poderia jamais entrar no coração do homem.

III

1. Mas que espécie de homens devem ser os que se alistem nesse empreendimento? Alguns podem imaginar que qualquer que deseje prestar auxílio nesse trabalho deva ser prontamente admitido; e que quanto maior for o número de membros, maior será sua eficiência. Mas isto não é verdade de modo nenhum: os fatos inegavelmente provam o contrário. Embora a primitiva Sociedade para a Reforma dos Costumes fosse composta somente de membros escolhidos; embora não fossem muitos, nem ricos, nem poderosos – romperam através de toda oposição e foram eminentemente bem sucedidos em todos os aspectos do seu empreendimento. Quando, porém, certo número de homens menos cuidadosamente selecionados foram acolhidos na Sociedade, ela se tornou cada vez menos proveitosa, até que, por degraus insensíveis, reduziu-se a nada.
2. O número de membros não vale, portanto, mais do que as riquezas e a proeminência. Esta é uma obra de Deus. Deve ser empreendida em nome de Deus e por sua causa. Segue-se que os homens que nem amam, nem temem a Deus, não têm parte, riem sorte nesse ministério. “Por que tomaste meu pacto em tua boca?” – pode Deus dizer a cada um deles – “enquanto que tu”, tu mesmo, “detestas o seres reformado e repeliste de ti minhas palavras?” Quem quer, pois, que viva em algum pecado notório, não está apto a empreender a reforma dos pecadores; mais especialmente se ele é culpado, em qualquer caso, ou em último grau, de profanar o nome de Deus; de comprar, vender ou fazer qualquer outra desnecessária no dia do Senhor; ou transgredindo no tocante a qualquer outra das matérias que esta Sociedade especialmente visa reformar. Não; que ninguém que tenha necessidade dessa reforma
se presuma em alistar-se em tal empresa. Primeiro tire ele “a trave de seu olho”; seja ele primeiro irrepreensível em tudo.
3. Não que isto baste; todo que se empenhe nessa obra deve ser mais do que um homem inofensivo. Deve ser homem de fé, tendo, no mínimo, tal medida daquela “evidência das coisas invisíveis”, que não ambicione “as coisas que se vêem, que são temporais, mas as invisíveis que são eternas”; uma fé que produza firme temor de Deus, com a perdurável resolução de, pela sua graça, abster-se de tudo que Ele proibiu e fazer tudo que Ele mandou. Ser-Ihe-á mais especialmente necessário aquele aspecto particular da fé – a confiança em Deus. É essa fé que “transporta montanhas”; que “apaga a violência do fogo”; que rompe através de toda oposição e habilita “0 homem a resistir e “perseguir mil”, sabendo em quem sua fortaleza repousa e, conquanto tenha “a sentença de morte em si mesmo, confia naquele que o levanta da morte”.
4. Aquele que tem fé e confiança em Deus será, conseqüentemente, homem de coragem. E esta é absolutamente necessária a todo homem para que possa alistar-se nesse empreendimento; porque muitas coisas ocorrerão no desdobramento da campanha que são terríveis à natureza; na verdade tão terríveis, que todo aquele que “se aconselha com a carne e o sangue” sentirá pavor de afrontá-las. Aqui, pois, a verdadeira coragem encontra seu próprio lugar e é necessária na mais alta medida. Só aquela fé pode ser suficiente. O crente pode dizer: “Não temo repulsa; a nenhum perigo temo,
Nem o submeter-me à provação. Jesus está perto.”
5. A paciência de perto se alia à coragem; uma encara os males do futuro; outra, os do presente. E quem quer que se uma aos que levam avante um empreendimento daquela natureza, grande ocasião terá para isso. Porque, apesar de toda sua inculpabilidade, ele se encontrará exatamente na situação de. Ismael: “sua mão contra todo homem e a mão de todos os homens contra si”. E não há maravilha nisto: se for verdade que “todo que vive piamente sofrerá perseguição”, quão eminentemente isto se cumprirá naqueles que, não contentes de viverem piamente, compelem os ímpios a fazerem outro tanto, ou, pelo menos, a se absterem de notória impiedade! Isto não é declarar guerra contra o mundo todo, desafiando a todos os filhos do diabo? E o próprio Satanás, “o príncipe deste mundo e governador das trevas” deste mundo, não empregará toda sua subtileza e toda sua força em defesa de seu reino vacilante? Quem pode esperar que o leão rugidor se submeta docilmente ao arrebatamento da presa dentre suas fauces? “Tendes”, portanto, “necessidade de paciência; para que, depois de terdes feito a vontade de Deus, possais receber a promessa.”
6. E tendes necessidade de firmeza, para que possais “guardar” esta profissão de vossa fé semvariação”. Isto também se deve encontrar em todo que se una a essa Sociedade, que não é tarefa para um homem de “espírito doublé”, para o que “é inconstante em seus caminhos”. Aquele que é como uma cana agitada pelo vento não é apto para essa milícia, que exige firme propósito de alma, constante determinação da vontade. Aquele a quem falte isso; pode pôr sua mão no arado, mas bem depressa “olhará para trás”. Pode, na verdade, “suportar por algum tempo; mas quando a perseguição ou a tribulação”, tormenta pública ou particular, se levantar, em razão do trabalho, “imediatamente se escandalizará”.
7. Em verdade, é duro perseverar o homem numa obra tão desagradável, a não ser que o amor sobrepuje tanto a pena como o temor. É, portanto, da mais alta conveniência que todos os que ingressem na Sociedade tenham “o amor de Deus derramado em seus corações”, para que sejam todos capazes de dizer: “Amamo-lo, porque Ele primeiro nos amou”. A presença daquele a quem sua alma vota amor tornará seu trabalho eficaz. Podem então dizer, não como no deserto de uma imaginação ardente, mas com a mais profunda veracidade e reflexão: “Conversando contigo, esqueço Todo tempo, e fadiga, e cuidado:
O trabalho e repouso e doce é a dor, Se tu, meu Deus, ali estás!”
8. O que acrescenta doçura ainda maior ao trabalho e à dor é o amor cristão a nosso próximo. Quando os homens “amam a seu próximo”, isto é, a toda alma humana, “como a si mesmos”, como à sua, própria alma; quando “o amor de Cristo” os “constrange” a amar uns aos outros “como Ele nos amou”; quando, como Ele “provou a morte por todos”, assim estejam prontos “a dar a sua vida” por “seus irmãos” (incluindo-se neste número todos os homens, toda alma pela qual Cristo morreu) – que perspectiva de perigo será então capaz de os desviar de seu “trabalho de amor?” Que sofrimento não estarão prontos a suportar para salvar uma alma dos tormentos eternos? Que trabalho longo, desapontamento, dor, vencerá sua firme determinação? Não querem eles ser “Contra todos os reveses fortalecidos, não se cansando
Com afanoso dia, nem com a noite insone?” Assim, o amor tanto “espera” como “suporta todas as coisas”; assim, a “caridade jamais se extinguirá”.
9. Ainda por outra razão o amor é necessário a todos o membros dessa Sociedade: porque “ele não se ensoberbece” produz não somente coragem e paciência, mas também humildade. Oh! Quão necessária é a humildade a todos os que se dedicam a essa obra! Que pode ser de maior importância do que serem eles pequeninos, apagados, baixos,vis a seus próprios olhos! De outro modo poderiam pensar que são alguma coisa, atribuiriam a si mesmos alguma coisa, adotariam alguma coisa do espírito farisaico, “confiando em si mesmos serem justos e desprezando os outros” – e nada poderia mais diretamente tender para a demolição de toda iniciativa. Porque então eles não teriam de contender somente com o mundo todo, mas também com o próprio Deus, uma vez que Ele “resiste aos soberbos, mas dá graça” apenas “aos humildes”. Todo membro dessa Sociedade deve, portanto, estar profundamente cônscio de sua própria loucura, fraqueza, Incapacidade, descansando continuamente de toda sua alma, naquele que é o único que possui sabedoria e fortaleza com a indizível convicção de que “o auxilio que é dado sobre a terra Deus é quem o concede”; e que é somente Deus que “opera em nós tanto o querer como o perfazer, segundo sua boa vontade”.
10. Mais um ponto deve ter indelevelmente gravado em seu coração, quem quer que se aliste nessa Sociedade – quero dizer: deve estar convencido de que “a ira do homem não cumpre a justiça de Deus”. Aprenda ele, portanto, com Aquele que é manso e humilde – e permaneça em doçura e humildade, “com toda simplicidade e mansidão”, ande de maneira “digna da vocação segundo a qual é chamado”. Seja “pacífico para com todos os homens”,  bons ou maus, por amor de si mesmo, por amor deles, por amor de Cristo. Alguém é “ignorante e está fora do caminho”? Tenha compaixão do tal. Os homens se opõem à Palavra e à obra de Deus, e até se põem em combate cerrado contra elas? Assim, em medida muito maior, ele precisa “em mansidão instruir àqueles que desse modo se lhe opõem”, a ver se por felicidade eles podem “escapar aos laços do diabo” e não mais serem “levados cativos à sua vontade”.

IV

1. Das qualificações dos que são próprios para alistar-se num empreendimento de tal natureza, passo a mostrar, em quarto lugar, com que espírito e de que maneira essa empresa deve ser conduzida. Primeiro, com que espírito. Ora, isto inicialmente se refere ao motivo que se deve manter em cada passo dado; porque se, em qualquer tempo, “a luz que há em ti são trevas, quão densas serão essas trevas!” Mas, “se teus olhos forem simples, todo o teu corpo será luminoso”, Isto deve ser, portanto, recordado continuamente e levado em conta em toda palavra e ação. Coisa alguma se deve falar ou fazer, seja grande ou pequena, tendo em vista qualquer vantagem temporal; nada com as vistas voltadas para o favor ou a estima, o amor ou o elogio dos homens, Mas a intenção – os olhos da mente – deve estar sempre fixa na glória de Deus e no bem dos homens.
2. Mas o espírito com que cada coisa se deve fazer interessa tanto à disposição como ao motivo. E isto não é outra coisa senão o que se descreveu acima. Porque a mesma coragem, paciência e firmeza que qualificam o homem para o trabalho, devem ser exerci das no terreno da Sociedade. Acima de tudo, que ele “tome o escudo da fé, com que pode apagar um milhar de dardos inflamados.” Exercite toda a fé que Deus lhe haja concedido, em cada “hora de provação. E que todas as suas obras sejam feitas em amor; que este jamais se aparte dele, Nem devem as muitas águas apagar esse amor, nem os dilúvios de ingratidão devem submergi-lo. Esteja no trabalhador, do mesmo modo, aquele espírito suave que houve também em Cristo Jesus; sim, e seja ele “revestido de humildade” tal, que encha o coração e lhe adorne todo o exterior. Ao mesmo tempo, mostre um “sentimento de misericórdia, brandura, longanimidade”, evitando a mínima aparência de malicia, amargura, ira ou ressentimento; sabendo que nossa vocação não é a de sermos “vencidos pelo mal, mas a de vencermos o mal com o bem”, Para conservar esse humilde, terno amor, é necessário fazer todas as coisas com recolhimento de espírito, vigiando contra toda
precipitação e descuido, contra o orgulho, a ira ou a cólera, Mas isso não se pode conseguir de outro modo a não ser pela “perseverança na oração”, quer antes e depois de entrar no serviço, quer durante toda a ação; tudo fazendo no espírito de sacrifício, de modoa oferecer tudo a Deus através do Filho de seu amor.
3. Quanto à maneira exterior de ação, a regra geral é esta: seja ela expressiva de seu caráter interior. Mas, para particularizar: guarde-se todo homem de “fazer o mal para que venha o bem”. Assim, “abandonando toda mentira, fale o homem a verdade a seu próximo”. Não use de fraude ou engano, nem para reprimir, nem para punir a homem algum; más, “em simplicidade e piedosa sinceridade, recomende-se à consciência dos homens à vista de Deus”, É provável que, pela tua adesão àquelas regras, menor seja o número de transgressores a serem condenados, mas as bênçãos de Deus muito mais abundantemente acompanharão a todo o teu empreendimento.
4. A inocência se junte, porém, a prudência, assim propriamente chamada: não aquilo que procede do inferno e que o mundo chama de prudência, não sendo mais do que mera astúcia, destreza, dissimulação; mas aquela “sabedoria do alto”, que nosso Senhor especialmente recomenda a todos que pretendam promover seu reino sobre a terra: “Sede prudentes como as serpentes”, embora também sejais “simples como as pombas”. Esta sabedoria vos instruirá no modo de enunciar vossas palavras e de apresentar-vos às pessoas com quem tiverdes de tratar, quanto ao tempo, ao lugar e a todas as demais circunstâncias. Ela vos ensinará a suprimir todas as ocasiões de ofensa, mesmo no tratocom os que buscam tais ocasiões, e a fazer as coisas da natureza mais ofensiva do modo menos ofensivo que seja possível.
5. Vossa maneira de falar, principalmente aos transgressores, deve ser, em todos os tempos,
profundamente séria (para que não lhes pareça insultante ou vangloriosa), antes inclinando-se à tristeza; mostrando vosso pesar por aquilo que fazem e vossa simpatia em razão do que sofrem. Sejam vosso a.r e tom de voz, assim como as palavras, sem paixão, calmas e doces; sim, onde isto não possa parecer dissimulação de bondade e de fraternidade, Em alguns casos, em que isto provavelmente possa ser tomado em sua real significação, podeis exteriorizar a boa vontade que nutris para com eles; mas ao mesmo tempo, (para que não se possa pensar que tal atitude proceda do temor Ou de qualquer disposição má), professando vossa intrepidez e inflexível resolução de vos opordes ao vicio e reprimi-lo nas máximas proporções.

V

1. Resta somente fazer algumas aplicações do que se tem dito, dirigidas, em parte, aos que já se acham alistados nesta obra e, em parte, a todos os que temem a Deus – e em especial àqueles que tanto o amam como o temem. Em relação a vós, que já estais alistados nesta obra, o primeiro conselho que vos pretendo dar é que considereis calma e profundamente a natureza de vosso empreendimento. Conhecer aquilo a que vos apegais; relacionar-vos intensamente com o que tendes em mão; considerar as objeções que se fazem à vossa empresa em conjunto; e, antes que avanceis, certificar-vos de que todas aquelas dúvidas não têm nenhum peso real: então pode todo homem agir segundo esteja plenamente persuadido em seu próprio espírito.
2. Aconselho-vos, em segundo lugar, a que não vos apresseis em aumentar vosso número: e, em adição a isto, não considereis a riqueza, a posição ou qualquer outra circunstância exterior; considerai somente as qualificações acima apontadas. Inquiri diligentemente se a pessoa proposta é de procedimento irrepreensível e se é homem de fé, coragem, paciência, firmeza; se ama a Deus e aos homens. Se assim for, ele aumentará vossa eficiência, assim como vosso número; se não for, vós perdereis mais com a aquisição dele do que ganhareis; porque estareis desagradando a Deus. E não vos entristeçais com excluir de vosso meio alguém que não corresponda ao caráter precedentemente esboçado. Diminuindo, assim, vosso número, aumentareis vossa força: sereis “vasos úteis para o uso do Mestre”.
3. Aconselhar-vos-ei, em terceiro lugar, a que observeis estritamente o motivo pelo qual em qualquer tempo falais ou agis. Guardai-vos de que vossa intenção não se misture a qualquer atenção dada ao proveito ou à satisfação pessoal. Tudo quanto fizerdes, “fazei-o ao Senhor”, como servos de Cristo. Não ambicionais o agradar-vos a vós mesmos em qualquer ponto, mas agradai Aquele a quem pertenceis e a quem servis. Sejam simples os vossos olhos do começo ao fim; contemplai somente a Deus, em qualquer palavra ou obra.
4. Aconselho-vos, em quarto lugar, a que façais tudo com disposição correta; com humildade e mansidão, com paciência e doçura dignas do Evangelho de Cristo. Dai cada passo confiando em Deus e no espírito mais terno e amante de que fordes capazes. Entretanto, vigiai sempre contra toda veemência e impetuosidade de espírito; e oral sempre, com todo fervor e perseverança, para que vossa fé não desfaleça. E que coisa alguma interrompa aquele espírito de sacrifício que fazeis de tudo quanto tendes e de tudo quanto sois, de tudo que sofreis e realizais, paraque tudo constitua uma oferenda de cheiro suave à vista de Deus, através de Cristo Jesus       

 John Wesley

O PREMIO DA FÉ

Agosto 6th, 2008

SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)

A JUSTIÇA DA FÉ

“Moisés escreveu que o homem que pratica a justiça que vem da lei, viverá por ela. Mas a justiça que vem da fé, diz assim: Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu (isto é, para trazer do alto a Cristo)? Ou: Quem descerá ao abismo (isto é, para fazer subir a Cristo dentre os mortos)? Mas que diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé, que pregamos.” (Romanos 10.5-8)
1. O apóstolo não contrapõe o concerto feito por intermédio de Moisés à aliança feita por Cristo. Se imaginávamos isto, era por falta de observar que tanto a primeira como a última parte dessas palavras foram anunciadas pelo próprio Moisés ao povo de Israel, e dizem respeito ao pacto que já então vigorava. (Dt 30.11, 12, 14). Mas foi o pacto da graça que Deus, através de Cristo, estabelecera com os homens em todas as idades (antes e debaixo da dispensarão judaica; como desde que Deus, se manifestou em carne), que S. Paulo aqui contrapôs ao pacto das obras, feito com Adão no paraíso, mas comumente tido na conta de único pacto feito por Deus com os homens, principalmente pelos judeus, acerca dos quais escreve o apóstolo.
2. Desses é que o escritor tão afetuosamente falava no começo deste capítulo: “O desejo de meu coração e a oração a Deus por Israel é no sentido de que eles sejam salvos. Pois lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, porém não segundo o conhecimento; pois, ignorando a justiça de Deus” (a justificação que decorre de sua inteira misericórdia, livremente perdoando nossos pecados mediante o Filho de seu amor, pela redenção que há em Jesus), “e procurando estabelecer a sua própria” (sua própria santidade, antecedendo à fé naquele “que justifica o ímpio”, como fundamenta de seu perdão e aceitação), “não se submeteram à justiça de Deus”, e, conseqüentemente, buscaram a morte no erro de sua vida.
3. Ignoravam que “Cristo é o fim da lei para a justiça de todo o que crê”; que pela oblação de si mesmo, feita uma vez, pôs fim à primeira lei ou pacto (que na verdade não foi dado por Deus a Moisés, mas a Adão, em seu estado de inocência), cujo estrito teor era, sem nenhum abrandamento, este: “Faze isto e viverás”; e, ao mesmo tempo, adquiriu-nos aquela melhor aliança: “Crê e viverás”; “crê e serás salvo”, salvo desde já, tanto da culpa como do domínio do pecado, e, em conseqüência, do salário do pecado, que é a morte.
4. E quantos há, mesmo entre os que são chamados pelo nome de Cristo, que são ainda agora igualmente ignorantes! Quantos que têm “zelo de Deus”, mas não “segundo o conhecimento”, estão procurando ainda “estabelecer sua própria justiça”, como base de seu perdão e aceitação, e por isso veementemente se negam a “submeter-se à justiça de Deus!” Certamente que o desejo de meu coração e a oração que faço a Deus por vós, é no sentido de que sejais salvos. Para remover de vosso caminho esse grande tropeço, empreendo mostrar, primeiro, qual é a “justiça que é da lei” e qual a “justiça que é da fé”; segundo, a loucura de confiar na justiça da lei e a sabedoria que há no submeter-se à justiça que é da fé.

I

1. Primeiro: “A justiça que é da lei diz: o que fizer estas coisas viverá por elas”. Constante e
perfeitamente observa todas as coisas para fazê-las, e então viverás para sempre. Esta lei ou pacto (usualmente chamado pacto das obras), dado por Deus ao homem no paraíso, requeria uma obediência perfeita em todas as suas partes, uma obediência completa, não faltando em coisa alguma, como condição de sua eterna perseverança na santidade e felicidade, destino para que fora criado.
2. O pacto requeria que o homem cumprisse toda a justiça, interior e exterior, negativa e positiva; que o homem não só se abstivesse de toda palavra ociosa e evitasse toda obra má, mas que guardasse toda a afeição, todo o desejo, todo pensamento, na obediência à vontade de Deus; que se conservasse santo como é Santo aquele que o criou, tanto no coração como em toda maneira de conversação; que fosse puro de coração como Deus é puro; perfeito como seu Pai celestial é perfeito; que amasse ao Senhor seu Deus de todo seu coração, de toda sua alma, de toda sua mente e de todas as suas forças; que ele amasse a toda alma que Deus fez, como o mesmo Deus o amou; que, pela benevolência integral, estivesse em Deus (que é amor) e Deus nele; que servisse ao Senhor seu Deus de todas as suas forças, e em todas as coisas unicamente ambicionasse a glória que dele vem.
3. Essas eram as coisas que a justiça da lei requeria, para que por elas pudesse viver o que as cumprisse. Mas a lei ainda exigia que essa obediência a Deus, essa santidade interior e exterior, essa conformidade do coração e da vida à sua vontade, fossem em grau perfeito. Nenhum abrandamento, nenhuma indulgência poderia ocorrer, de modo a determinar qualquer redução na intensidade da obediência, fosse no tocante a um til ou iota, fosse na prática interior ou exterior da lei. Se cada mandamento relativo às coisas externas fosse obedecido, ainda isto não era bastante, a não ser que nessa obediência se empenassem todas as forças, preenchendo-a o homem na medida mais elevada e cumprindo-a da maneira mais perfeita. O amar a. Deus com todos os poderes e faculdades ainda não corresponderia à exigência do pacto, a menos que Deus fosse amado com a plena capacidade de cada faculdade, com todas as reais capacidades da alma.
4. Ainda uma coisa requeria indispensavelmente a justiça da lei: exigia que essa obediência universal, essa perfeita santidade, tanto de coração como de vida, fosse também absolutamente ininterrupta, corresse sem a mínima intermitência, desde o momento em que Deus criou o homem e infundiu em suas narinas o sopro da vida, “até o dia em que terminasse sua carreira probatória e fosse confirmado na vida eterna.
5. A justiça que é da lei fala, pois, deste modo: “Tu, ó homem de Deus, permanece em amor, à imagem de Deus segundo a qual foste feito. Se queres viver, guarda os mandamentos, que estão agora escritos em teu coração. Ama o Senhor teu Deus de todo teu coração. Ama, como a ti mesmo, a toda a alma que ele fez. Nada desejes senão a Deus. Tem a Deus em mira através de todo pensamento, palavra e obra. Não te desvieis, num movimento insensato de corpo ou de alma, daquele que é teu alvo e o prêmio de tua alta vocação; e tudo quantO há em ti louve seu santo nome, nisto empenhando todo poder e faculdade de tua alma, em todo gênero, na mais elevada medida e em todos os momentos de tua existência. Faze isto e viverás: brilhe tua luz, flameje teu amor, mais e mais, até que sejas recebido nos céus, na casa de Deus, para reinar com ele pelos séculos dos séculos”.
6. Mas a justiça que é da fé fala deste modo: “Não digas em teu coração: quem subirá ao céu? Isto é, para trazer de cima a Cristo”, (como se houvera alguma tarefa impossível que Deus requeresse previamente de ti, para tua aceitação); “ou, quem descerá ao abismo? Isto é, poderá trazer a Cristo dentre os mortos”, (como se ainda houvera alguma coisa a ser feita, em virtude da qual pudesse ser aceito. “Mas que diz ele? A palavra”, de acordo com cujo teor podes ser agora aceita na qualidade de herdeiro da vida eterna, “está perto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que nós pregamos”, o novo pacto que Deus agora estabeleceu com o homem pecador, através de Cristo Jesus.
7. Por “justiça que é da fé” entende-se a condição de justificação (e, em conseqüência, de salvação presente e final, se permanecermos nela até o fim), que foi dada por Deus ao homem decaído, pelos méritos e pela mediação de seu unigênito Filho. Isto foi em parte revelado a Adão, logo depois de sua queda estando contido na promessa original, a ele feita, assim como à sua descendência, no tocante à semente da mulher, que devia esmagar a cabeça” da serpente” (Gn 3.15). Foi um pouco mais claramente revelado a Abraão pelo anjo de Deus, quando disse: “por mim mesmo jurei, diz o Senhor, que em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 12.16, 18). Foi mais plenamente dado a conhecer a Moisés, a Davi e aos profetas que se seguiram; e, através destes, a muitos dentre o povo de Deus em suas respectivas gerações. Mas ainda assim a massa permaneceu ignorante, sendo poucos os que tiveram real compreensão. “A vida e a imortalidade” não tinham ainda “vindo à luz” para os judeus do
passado, como a nós nos vieram “pelo Evangelho”.
8. Este pacto não diz ao homem pecador: “Guarda impecável obediência e vive”. Se esta fosse a condição, não adviria maior benefício de tudo quanto Cristo fez e sofreu por ele do que colheria se lhe fosse exigido, para que pudesse viver, que “subisse ao céu e de lá trouxesse a Cristo”, ou “descesse ao abismo”, ao mundo invisível, e “trouxesse a Cristo dentre os mortos”. Embora o que é impossível ao mero homem não o seja, todavia, ao homem assistido pelo Espírito, Deus não exige, contudo; que o homem faça o impossível: isto seria, simplesmente zombar da fraqueza humana. Estritamente falando, o pacto da graça não requer, na verdade, “que façamos coisa alguma como absoluta, e indispensavelmente necessário à nossa justificação; mas exige somente crer naquele que, por amor de seu Filho e em atenção a propiciação que este fez, “justifica o ímpio que não tem obras” e lhe imputa sua fé como justiça. Também Abraão “creu no Senhor, e isto lhe foi imputado como justiça” (Gn 15.6). “E ele recebeu o, sinal da circuncisão, o selo da justiça da fé para que pudesse ser o pai de todos os que crêem, e para que essa justiça pudesse ser também imputada a eles.” (Rm 4.11). “Isto não foi escrito somente por causa dele, quê ela (isto é, a fé), lhe foi imputada; mas também por nossa causa, a quem ela será imputada” para a justiça, permanecendo o homem na perfeita obediência, para nossa aceitação na presença de Deus, “se nós cremos naquele que levantou a Jesus nosso Senhor dentre os mortos, o qual foi entregue” à morte “por nossas ofensas e foi ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4.23-25): para segurança da remissão de nossos pecados e garantia de uma segunda vida, em relação aos que crêem.
9. Que diz, pois, o concerto de perdão, de amor imerecido, de misericórdia perdoadora? “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”. No dia em que tu creres, certamente viverás. Serás restaurado no favor de Deus; e em seu” beneplácito está a vida. Serás salvo da maldição e da ira de Deus. Passarás da morte do pecado para a vida da justiça. E, se perseverares até o fim, crendo em Jesus, jamais provarás a segunda morte; antes, havendo padecido com teu Senhor, com Ele também viverás e reinarás pelos séculos dos séculos.
10. Agora “esta palavra está próxima de ti”. Esta condição de vida é clara e fácil, sempre estando ao alcance da mão. “Está em tua boca e em teu coração”, mediante a operação do Espírito de Deus. “No momento em que creres em teu coração” naquele a quem Deus “levantou da morte”, e “confessares com tua boca o Senhor Jesus” como teu Senhor e teu Deus, “serás salvo” da condenação, da culpa e da punição de teus pecados primitivos, e terás poder de servir a Deus em verdadeira santidade, ao longo dos dias restantes de tua vida.
11. Qual é, pois, a diferença entre a “justiça que é da lei” e a “justiça que é da fé”, entre o primeiro pacto, ou o pacto das obras, e o segundo, que é o pacto da graça? A essencial, imutável diferença, é esta: um supõe o homem previamente santo e feliz, criado à imagem de Deus e gozando de seu favor, e prescreve a condição sob a qual possa continuar assim, em amor e alegria, vida e imortalidade; o outro supõe ser o homem atualmente ímpio e infeliz, decaído da gloriosa imagem de Deus, tendo sobre si a ira do Senhor e correndo, devido ao pecado, pelo qual sua alma está morta, rumo à destruição corporal e à perdição eterna; e ao homem em tal estado prescreve-se a condição pela qual possa recuperar a pérola que havia perdido, reaver a graça e reavivar a imagem do Criador, restabelecer a vida divina em sua, alma e ser restaurado no conhecimento e no amor de Deus, que é o princípio da vida eterna.
12. Mais: o pacto das obras requeria do homem perfeito, para que continuasse no favor de Deus, em seu conhecimento e amor, uma perfeita e ininterrupta obediência a cada artigo da lei de Deus; enquanto que o segundo pacto, para possibilitar ao pecador a reaquisição da graça: e da vida divina, requer somente fé, a viva fé naquele que, através de Deus, justifica o que não obedece.
13. Ainda mais: o pacto das obras requeria de Adão e de todos os seus filhos o pagamento do preço de si mesmos, de modo que pudessem receber todas as bênçãos futuras de Deus. Mas no pacto da graça, vendo Deus que não” tínhamos nada com que pagar, “francamente nos perdoou tudo”, sob a condição, porém, de crermos naquele que por nós pagou o preço de resgate, isto é, naquele que se deu a si mesmo em “propiciação pelos nossos pecados e, não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo”.
14. Assim, o primeiro pacto requeria aquilo que está muito fora do alcance dos filhos dos homens, isto é, a obediência perfeita, que longe está dos que são “concebidos e nascidos em pecado”; enquanto que o segundo requer o que está muito à mão, de modo a poder afirmar: “Tu és pecado, Deus é amor! Tu, pelo pecado, decaíste da graça de Deus; todavia em Deus “ainda há misericórdia. Traze todos os teus pecados perante o Deus perdoador, e eles se dissiparão como fumo. Se não foras ímpio, não haveria lugar para que Ele te perdoasse como ímpio. Aproximaste agora, em plena segurança da fé. Ele fala, e o que diz sem falta se cumpre. Não temas: crê somente; porque o justo Deus justifica a todo aquele que crê em Jesus”.

II

1. Consideradas estas coisas, fácil será mostrar, como, em segundo lugar, prometi fazê-lo, a loucura de confiar na “justiça que é da lei” e a sabedoria que há em “submeter-se à “justiça que é da fé”. A loucura daqueles que ainda confiam na “justiça que é da lei”, cujos termos são: “Faze isto e viverás”, claramente ressalta desde logo: eles partem do erro; seu primeiro passo é um engano fundamental: porque, antes que pensem em reclamar qualquer bênção, nos termos desse pacto, devem supor-se na condição daquele com quem o pacto se fez. Quão frívola seria, entretanto, tal suposição! O pacto fora feito com Adão em estado de inocência! Quão fraco deve ser, logo, todo o edifício desde que repouse sobre tal fundamento! E como são loucos os que assim constroem sobre a areia, parecendo nunca terem considerado que o pacto das obras não foi dado aos homens que estavam “mortos em palitos e pecados”, mas querido o homem se fizera vivo em relação a Deus, quando não conhecia pecado, mas era santo como Deus é santo; como são loucos os que se esquecem de que tal concerto jamais teve a função de restabelecer na alma, uma vez perdidas, a graça e a vida de” Deus; mas somente a continuação e o aumento dos favores espirituais, até que estes se completem na vida eterna!
2. Nem eles consideram, os que estão tentando estabelecer sua “própria justiça, que é da lei”, que espécie de obediência ou justiça a lei indispensavelmente exige. A obediência deve ser perfeita e integra em todos os pontos; do contrário não responderá às exigências da lei. Mas, qual de vós é capaz de realizar tal obediência, e, conseqüentemente, viver por ela? Quem dentre vós cumpre todo iota ou til, mesmo dos mandamentos exteriores do Deus, coisa alguma fazendo, grande ou pequena, que Deus proíba; nada deixando de fazer de tudo quanto Ele recomenda; não pronunciando nenhuma palavra ociosa, mas tendo a conversação sempre “apta a ministrar graça aos ouvintes”; e observando o que diz o apóstolo: “quer com ais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”? E vós, pecadores, muito menos capazes sois de cumprir todos os mandamentos internos de Deus ― aqueles que exigem que
todo impulso e todo movimento de vossa alma sejam santidade à vista do Senhor! Sois capazes de “amar a Deus que todo vosso coração”, de amar a toda a humanidade como à vossa própria alma, de “orar sem cessar, de em tudo dar graças”, de ter a Deus sempre diante de vos e de guardar toda afeição, desejo e pensamento na obediência e essa lei?
3. Deveis também considerar que a justiça da lei requer, não apenas obediência a cada mandamento de Deus, negativo e positivo, interno e externo, mas do mesmo modo exige que ta! Obediência se mantenha em grau perfeito. Em cada caso a voz da lei é esta: “Servirás ao Senhor teu Deus de toda tua força”: não concede redução de espécie alguma, não escusa nenhum defeito; condena qualquer discrepância verificada na inteira medida da obediência e imediatamente pronunCia maldição contra o transgressor. A lei somente encara as regras invariáveis da justiça, e diz: “Não sei usar de misericórdia!”
4. Quem pode, logo, aparecer diante de tal Juiz, que é “severo para anotar o que seja encontrado em falta”? Quão fracos são os que desejam ser levados ao tribunal, onde “nenhuma carne pode ser justificada” - alma alguma da descendência de Adão! Porque, suponhamos que no presente guardemos, de todas as nossas forças, todos os mandamentos: eis que sobrevém uma transgressão mínima - e toda nossa aspiração à vida será no mesmo instante irremediavelmente destruída! Se transgredirmos um ponto qualquer da lei, acabou-se nossa justiça, visto que a lei condena tudo quanto não preencha a medida contínua e perfeita da obediência. Assim, de acordo com a sentença da lei, para o que tenha pecado uma vez, de qualquer modo, “permanece apenas uma tremenda expectação de ardente ira, que devorará os adversários de Deus”.
5. Não é, pois, loucura das loucuras, procurar o homem decaído alcançar a vida através dessa justiça; o homem, que foi “concebido em iniqüidade e em pecado o concebeu sua mãe”; o homem, que é, por natureza, inteiramente “terreno, sensual e diabólico”, a par de “corrupto e abominável”, em quem, até que encontre a graça, “não habita nenhum bem”, nem pode de si mesmo nutrir nenhum pensamento bom; o homem, que é, na verdade, todo pecado, um simples amontoado de iniqüidade e que comete impiedade a cada respirar; o homem, cujas transgressões atuais, em palavras e obras, são em número maior que o de seus cabelos?! Que obtusidade, que insensatez é necessária para que um tal verme impuro, culpado, desamparado, ouse buscar aceitação por sua própria justiça, ouse viver pela “justiça” que é da “lei”!
6. Ora, todas as considerações que provam a loucura de confiar na “justiça que é da lei”, igualmente provam a sabedoria que há no submeter-se o homem à “justiça que é, de Deus pela fé”. Seria fácil mostrar isto pelo confronto de cada uma das considerações precedentes. Desisto, porém, de tal demonstração, já que a sabedoria do primeiro passo dado em direção à. fé, - a renúncia de nossa própria justiça, - claramente evidencia desde logo que estamos agindo de acordo com a verdade e com a real natureza das coisas. Que está mais de acordo com a verdade do que reconhecermos em nosso coração e declararmos pelos nossos lábios o estado verdadeiro em que nos encontramos? Reconhecermos que conosco trazemos para o mundo umas naturezas corruptas, pecaminosas; mais corrupta, na verdade, do que poderíamos à primeira vista conceber ou encontrar palavras que o traduzissem; que, em razão disto, estamos prontos para tudo que é mau e somos avessos a todo bem; que estamos cheios de orgulho, obstinação, paixões desordenadas, desejos insensatos, afeições vis e atordoantes; que somos amigos do mundo, mais amigos dos prazeres do que de Deus? Reconhecermos que nossa vida não tem sido melhor do que nossos corações, sendo antes ímpia e perversa sob muitos aspectos, de modo que nossos pecados atuais, tanto em palavras como em obras, são, pelo número, como as estrelas do céu? Reconhecermos que, por todos esses motivos, estamos desagradando àquele cujos olhos são demasiadamente puros para contemplarem a iniqüidade, e que de Deus nada merecemos, senão indignação, ira e morte, - as recompensas atraídas pelo pecado? Reconhecermos que não podemos, mediante qualquer justiça nossa (na verdade nenhuma possuímos), nem por qualquer de nossas obras (porque estas são como a árvore que as produzem), apaziguar a ira de Deus ou evitar a punição que justamente merecemos; sim, que abandonados a nós mesmos, somente poderíamos ir de mal a pior, afundando-nos cada vez mais profundamente no pecado, ofendendo a Deus cada vez mais atrozmente, tanto pela maldade de nossas obras, como pela tendência má de nossa mente carnal, até que tenhamos preenchido a medida de nossas iniqüidades e façamos cair sobre nós repentina destruição? E esta não é a verdadeira condição em que por natureza nos encontramos? Reconhecê-lo; pois, tanto de coração como por palavras, isto é, renunciar à nossa própria justiça, à “justiça que é da lei”, - é proceder de acordo com a natureza das coisas e, conseqüentemente, é gesto de verdadeira sabedoria.
7. A sabedoria de submeter-se à “justiça da fé” transparece, ainda, desta consideração: o ser ela a justiça de Deus. Quero dizer: ela é o método de reconciliação com Deus, escolhido e estabelecido por Ele próprio, não apenas como Deus de sabedoria, mas como soberano Senhor dos céus e da terra e de todas as criaturas. Não é razoável que o homem pergunte a Deus: “Que fazes tu?”, pois que ninguém, a não ser que seja inteiramente desprovido de senso, contenderá com o que é mais poderoso, com aquele cujo reino abrange tudo; ao contrário, constitui verdadeira sabedoria, é sinal de segura compreensão, o aceitar as coisas que Deus escolheu, dizendo a propósito disto como de quaisquer outras coisas: - “Ele é o Senhor: faça o que bem lhe parecer”.
8. Pode-se considerar, ainda, que é de graça espontânea, de imerecida misericórdia, que Deus outorga ao pecador o roteiro da reconciliação consigo mesmo, para que não sejamos desligados de sua mão e inteiramente riscados de sua memória. Por isso, qualquer que tenha sido o método que Deus, por sua terna misericórdia e imerecida bondade, tenha se dignado apontar, no intuito de que achem graça à sua vista os seus inimigos, os que tão insensatamente se rebelaram contra Ele, mantendo-se em longa e obstinada oposição ao Criador; qualquer que tenha sido esse método, é, indubitavelmente, sábio aceitá-lo com toda reverência!
9. Mencionaremos ainda uma consideração. É sabedoria ambicionar os melhores fins através dos meios melhores. Ora, o melhor fim a que pode almejar a criatura é a felicidade em Deus. O melhor fim a que pode aspirar à criatura decaída é recuperar a graça e a semelhança de Deus. Mas o meio melhor, e, na verdade, único, que abaixo dos céus foi dado ao homem, pelo qual ele pode reconquistar o favor de Deus, que ê mais excelente do que a própria vida, ou a semelhança de Deus, que é a verdadeira vida da alma, - é a sujeição à “justiça que é da fé”, a fé noUnigênito Filho de Deus.

III

1. Tu, quem quer que sejas, que tens o desejo de ser perdoado e restaurado no favor de Deus, não digas em teu coração: “Devo fazer primeiro isto, devo primeiro dominar todo o pecado, devo eliminar toda palavra e obra má e fazer todo bem a todos os homens; ou, devo ir primeiro à igreja, receber a Ceia do Senhor, ouvir mais sermões e fazer mais orações”. Ai, meu irmão! tu estás perfeitamente transviado da justa vereda! Tu és ainda “ignorante da justiça de Deus” e estás “procurando estabelecer tua própria justiça” como base de tua reconciliação. Não sabes que coisa alguma podes fazer, senão pecar, até que te reconcilies com Deus? Como, então, dizes: “Devo fazer isto ou aquilo primeiro e depois crerei?” Nada faças, senão crer primeiro! Crer no Senhor Jesus Cristo, a propiciação pelos teus pecados. Lança primeiro este bom fundamento e depois farás maravilhosamente todas as outras coisas.
2. Nem digas em teu coração: “Não posso ainda ser aceito, por que não sou ainda bastante bom”. Quem jamais houve que fosse bastante bom para merecer aceitação por parte de Deus? Houve Jamais dentre os filhos de Adão algum suficientemente bom para merecer isto? Haverá, porventura, ainda algum, até a consumação de todas as coisas? Quanto a ti, não és bom de forma alguma: em ti não há nada de bom. E nunca o serás, até que creias em Jesus. Ao contrário, serás cada vez pior. Mas há necessidade de seres pior para que sejas aceito? Já não és suficientemente mau? Na verdade tu o és; Deus o sabe. Tu não podes negá-lo. Então, não te demores. Todas as coisas já estão dispostas. “Levanta-te e lava-te de teus pecados”. A fonte está jorrando. Agora é o tempo de te branqueares no sangue do Cordeiro; agora serás purificado como “com hissopo” e “serás limpo”: Ele te lavará e “serás mais puro do que a neve”.
3. Não digas: “Não estou bastante contrito: não tenho sentimento bastante forte de meus pecados”. Eu o sei. Prouvera a Deus fosses mais sensível aos pecados, mil vezes mais contrito do que és. Mas não te detenha ai. Pode ser que Deus te coloque em tal estado de sentimento e contrição, não antes que creias, mas pelo teu próprio ato de crer. Pode ser que não tenhas de chorar longamente até que muito ames porque muito tenhas sido perdoado. Até que isto se dê, olha para Jesus. Vê como Ele te ama! Que podia fazer mais por ti, além do que já fez?
“Ó Cordeiro de Deus! Houve jamais sofrer, Houve jamais amor semelhante ao teu?”
Olha fixamente para Ele, até que Ele -olhe para ti e quebre teu duro coração. Então tuas faces serão “águas” e teus “olhos fonte de lágrimas”.
4. Nem digas ainda: “Devo fazer alguma coisa mais antes de ir a Cristo”. Conceda-se que, retardando o Senhor sua vinda fosse razoável e certo esperares por sua aparição, fazendo, quando estivesse em tuas mãos, qualquer coisa que Ele houvesse ordenado. Mas não é razoável tal suposição. Como sabes que Ele se demore ainda? , Talvez que Jesus apareça, como a aurora vista do alto, antes que clareie a manhã. Oh! Não lhe fixes tempo! Espera-o a cada momento. Agora está Ele próximo; em breve estará à porta!
5. E para que fim quererias tu esperar por maior sinceridade, antes que teus pecados sejam cancelados? Fazeres-te mais digno da graça de Deus? Ai! Estás ainda “estabelecendo tua própria justiça”! Ele terá misericórdia, não porque seja digno dela, mas porque sua compaixão não falha. Não porque sejas justo, mas porque Jesus Cristo fez propiciação pelos teus pecados.
Mais: se houver qualquer coisa boa em sinceridade, porque o esperas antes que tenhas fé, - sendo esta a única raiz de tudo que é realmente bom e santo?
Acima de tudo, por quanto tempo tu te obstinas em esquecer que, tudo que fizeres e tudo quanto és, antes que teus pecados sejam perdoados, reputa-se como nada diante de Deus, como meio de assegurar perdão! Sim, tudo será arrojado para longe de ti, calcado sob os pés, olvidado, ou nunca acharás graça à vista de Deus; porque, enquanto não fizeres assim, não poderás pedir graça no caráter de mero pecador, culpado, perdido,